
A tirzepatida é um fármaco injetável de administração semanal que atua como agonista duplo dos receptores do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) e do peptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP), inicialmente aprovado para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2 e, posteriormente, para o manejo da obesidade.
Seu mecanismo de ação envolve o aumento da secreção de insulina dependente de glicose, o retardo do esvaziamento gástrico e o aumento da saciedade, resultando em redução significativa da ingestão calórica e do peso corporal.
Com a expansão do uso clínico da tirzepatida, especialmente em protocolos de emagrecimento, surgiram questionamentos sobre efeitos adversos menos frequentemente discutidos, entre eles a sensação de boca seca, também denominada xerostomia. Do ponto de vista dos grandes ensaios clínicos randomizados, a xerostomia não é descrita como evento adverso primário ou predominante nos estudos da série SURPASS e SURMOUNT, que avaliaram eficácia e segurança da tirzepatida em populações com diabetes tipo 2 e obesidade. Nesses estudos, os eventos adversos mais comuns foram gastrointestinais, especialmente náuseas, vômitos, diarreia e constipação, com incidência de náuseas podendo ultrapassar 20–25% dos pacientes.
De acordo com a bula da tirzepatida (Zepbound®), a xerostomia é descrita como evento adverso pouco frequente, ocorrendo em aproximadamente 4% a 5% dos pacientes, percentual substancialmente inferior ao observado para náuseas e outros efeitos gastrointestinais, o que reforça que não se trata de um efeito farmacológico central do medicamento.
Apesar disso, a ocorrência de boca seca na prática clínica pode ser explicada por mecanismos indiretos associados ao uso da tirzepatida, e não por efeito anticolinérgico direto sobre as glândulas salivares. Um dos principais fatores envolvidos é a redução da ingestão hídrica voluntária, frequentemente observada em pacientes que apresentam saciedade precoce e diminuição do apetite induzidas pela ativação dos receptores de GLP-1/GIP. A diminuição do consumo de líquidos pode levar a estados de desidratação leve, condição sabidamente relacionada à redução do fluxo salivar e à sensação subjetiva de boca seca.
Do ponto de vista neurofisiológico, a ativação dos receptores de GLP-1 no sistema nervoso central, particularmente em regiões como o núcleo do trato solitário e o hipotálamo, influencia não apenas o controle da fome, mas também o drive de sede, podendo levar a quadros de hipodipsia relativa, nos quais o paciente simplesmente “esquece” de beber água. Esse mecanismo contribui para explicar por que a boca seca pode ocorrer mesmo na ausência de vômitos ou diarreia importantes.
Outro fator contributivo é a presença de sintomas gastrointestinais persistentes, como náuseas leves, que podem reduzir involuntariamente a ingestão hídrica diária e favorecer a xerostomia. Além disso, a perda de peso acelerada observada em estudos com tirzepatida, frequentemente superior a 15% do peso corporal em indivíduos com obesidade, pode alterar o equilíbrio hidroeletrolítico, especialmente nas fases iniciais do tratamento, contribuindo para sintomas como boca seca, fadiga e tontura.
Do ponto de vista farmacológico, a tirzepatida não apresenta efeito anticolinérgico direto, mecanismo classicamente implicado na xerostomia medicamentosa observada com antidepressivos tricíclicos, antipsicóticos e antimuscarínicos. Isso reforça que a boca seca observada durante o uso do fármaco decorre predominantemente de fatores comportamentais, metabólicos e centrais, e não de toxicidade direta sobre as glândulas salivares.
Orientações clínicas práticas
Na prática clínica, diante da queixa de boca seca em pacientes em uso de tirzepatida, recomenda-se uma abordagem estruturada, baseada em evidências:
• Avaliar sistematicamente a ingestão hídrica diária, considerando que a redução espontânea do consumo de líquidos é comum em contextos de saciedade precoce induzida pelo GLP-1/GIP (JASTREBOFF et al., 2022).
• Orientar o fracionamento da ingestão de água ao longo do dia, com estímulo consciente ao consumo regular de pequenos volumes, estratégia eficaz na prevenção de desidratação leve associada à xerostomia (SHIP; PILLEMER; BAUM, 2002).
• Monitorar sinais clínicos de desidratação, como urina mais concentrada, redução da frequência urinária e persistência da boca seca, especialmente nas primeiras semanas de tratamento (FRIAS et al., 2021).
• Investigar ativamente a presença de náuseas, ajustando a progressão da dose conforme a tolerabilidade individual, conforme recomendado em estudos clínicos e na bula do medicamento (FRIAS et al., 2021; FDA, 2023).
• Orientar ingestão adequada de eletrólitos em pacientes com perda ponderal acelerada, a fim de reduzir sintomas relacionados a alterações hidroeletrolíticas (JASTREBOFF et al., 2022).
• Revisar medicações concomitantes, considerando que diversos fármacos amplamente utilizados, como antidepressivos, ansiolíticos e anti-hipertensivos, são correlacionados à redução do fluxo salivar e podem potencializar a xerostomia.
Nos casos em que a sensação de boca seca persiste apesar das medidas comportamentais, deve-se investigar diagnósticos diferenciais, como diabetes mal controlado, distúrbios metabólicos ou condições sistêmicas associadas à hipossalivação, reforçando a importância do acompanhamento clínico contínuo e individualizado.
À luz da literatura científica disponível, conclui-se que a boca seca não constitui um efeito adverso primário da tirzepatida, mas sim um achado secundário, relacionado principalmente à redução da ingestão hídrica, à modulação central da sede e à perda de peso acelerada associada ao tratamento. O manejo adequado deve ser individualizado, baseado em avaliação clínica criteriosa e fundamentado em evidências científicas, evitando interpretações alarmistas quanto à segurança do medicamento.
Referências (Norma ABNT)
DEL PRATO, S. et al. Tirzepatide versus insulin glargine in type 2 diabetes and increased cardiovascular risk (SURPASS-4). The Lancet, v. 398, n. 10313, p. 1811-1824, 2021.
FRIAS, J. P. et al. Efficacy and safety of tirzepatide monotherapy versus semaglutide in patients with type 2 diabetes (SURPASS-2). The New England Journal of Medicine, v. 385, n. 6, p. 503-515, 2021.
JASTREBOFF, A. M. et al. Tirzepatide once weekly for the treatment of obesity. The New England Journal of Medicine, v. 387, n. 3, p. 205-216, 2022.
SCULLY, C. Drug effects on salivary glands: dry mouth. Oral Diseases, v. 9, n. 4, p. 165-176, 2003.
SHIP, J. A.; PILLEMER, S. R.; BAUM, B. J. Xerostomia and the geriatric patient. Journal of the American Geriatrics Society, v. 50, n. 3, p. 535-543, 2002.
UNITED STATES FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. Zepbound (tirzepatide) prescribing information. Silver Spring: FDA, 2023.