
A berberina é um alcaloide isoquinolínico natural extraído de plantas como Berberis aristata, Berberis vulgaris e Coptis chinensis, sendo utilizada há séculos na medicina tradicional chinesa e ayurvédica para o tratamento de distúrbios metabólicos e infecciosos. Nas últimas décadas, esse composto passou a ser amplamente investigado pela medicina metabólica moderna devido aos seus efeitos sobre o controle glicêmico, a sensibilidade à insulina e o perfil lipídico, fatores diretamente envolvidos na fisiopatologia do excesso de peso e da obesidade.
Diferentemente de substâncias voltadas predominantemente à supressão central do apetite, a berberina apresenta uma ação metabólica sistêmica, interferindo nos mecanismos fisiopatológicos que sustentam o ganho de peso, especialmente em indivíduos com resistência à insulina, síndrome metabólica e inflamação crônica de baixo grau (ASBAGHI et al., 2022). Essa característica explica por que seus efeitos sobre o peso corporal tendem a ser graduais e dependentes do contexto metabólico do indivíduo.
O principal mecanismo de ação da berberina envolve a ativação da AMP-activated protein kinase (AMPK), uma enzima considerada o principal sensor energético celular, responsável por regular o equilíbrio entre consumo e armazenamento de energia. A ativação da AMPK promove redução da gliconeogênese hepática, aumento da captação periférica de glicose e maior oxidação de ácidos graxos, resultando em melhora da eficiência metabólica global.
Além disso, a berberina demonstrou capacidade de reduzir a lipogênese hepática e melhorar o perfil lipídico, com diminuição de triglicerídeos e colesterol LDL, o que contribui indiretamente para o manejo do peso corporal e do risco cardiometabólico. Esses efeitos são particularmente relevantes em indivíduos com obesidade associada a dislipidemia e resistência à insulina (ASBAGHI et al., 2022).
Estudos recentes também sugerem que a berberina exerce influência sobre a microbiota intestinal, promovendo alterações favoráveis na composição bacteriana, com possível aumento de microrganismos associados à integridade da barreira intestinal e à produção de ácidos graxos de cadeia curta, mecanismos relacionados à melhora da inflamação metabólica. Essa modulação intestinal pode contribuir para a melhora do metabolismo energético e da homeostase glicêmica.
No que se refere às evidências clínicas, uma meta-análise publicada em 2020 na Clinical Nutrition avaliou ensaios clínicos randomizados e demonstrou que a suplementação de berberina esteve associada a reduções estatisticamente significativas no peso corporal, no índice de massa corporal (IMC) e na circunferência da cintura, especialmente em indivíduos com sobrepeso e síndrome metabólica. No entanto, os autores ressaltam que os efeitos observados são modestos e progressivos, não comparáveis aos de fármacos específicos para obesidade.
Esses achados foram corroborados por uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2022 na Phytotherapy Research, que confirmou melhora de parâmetros antropométricos e metabólicos com doses entre 900 mg e 1.500 mg por dia, administradas por períodos de 8 a 12 semanas (ASBAGHI et al., 2022). Os autores destacam que os melhores resultados ocorreram quando a suplementação foi associada a intervenções no estilo de vida, como alimentação equilibrada e prática regular de atividade física .
Do ponto de vista farmacodinâmico, a berberina é frequentemente comparada à metformina, uma vez que ambas compartilham a ativação da via da AMPK e efeitos semelhantes sobre a sensibilidade à insulina e a produção hepática de glicose (YIN; YE; JIA, 2012). Estudos clássicos demonstraram que a berberina pode apresentar eficácia metabólica comparável à metformina em determinados contextos clínicos, especialmente no controle glicêmico, embora não substitua terapias farmacológicas consagradas.
A biodisponibilidade oral da berberina é considerada baixa, o que explica a necessidade de doses fracionadas ao longo do dia e o desenvolvimento de formulações destinadas a melhorar sua absorção intestinal. O uso próximo às refeições é frequentemente recomendado para reduzir picos glicêmicos pós-prandiais e minimizar efeitos adversos gastrointestinais, como flatulência, constipação e desconforto abdominal.
Apesar de sua origem natural, a berberina não é isenta de riscos. Evidências mostram que ela pode inibir enzimas do citocromo P450, especialmente a CYP3A4, o que pode alterar a concentração plasmática de diversos medicamentos, exigindo cautela em pacientes em uso de polifarmácia (YIN; YE; JIA, 2012). Por esse motivo, seu uso deve ser orientado por profissional de saúde qualificado.
O National Center for Complementary and Integrative Health reconhece que a berberina apresenta evidências promissoras para o manejo de distúrbios metabólicos, mas ressalta que os dados disponíveis ainda não sustentam seu uso como terapia isolada para obesidade clínica, reforçando a importância do acompanhamento médico e da individualização do tratamento.
Em síntese, a berberina não deve ser encarada como um agente emagrecedor isolado, mas como uma ferramenta adjuvante no manejo metabólico. A redução de peso observada é consequência da melhora da resistência à insulina, do perfil lipídico e do ambiente inflamatório do paciente, sendo mais eficaz quando integrada a um plano terapêutico estruturado e baseado em evidências científicas.
Referências (ABNT – NBR 6023:2018)
ASBAGHI, O. et al. Effects of berberine supplementation on body weight, body mass index and waist circumference: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Clinical Nutrition, v. 39, n. 10, p. 2998-3007, 2020.
ASBAGHI, O. et al. The effects of berberine supplementation on anthropometric indices and metabolic markers in adults: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Phytotherapy Research, v. 36, n. 1, p. 212-223, 2022.
NATIONAL CENTER FOR COMPLEMENTARY AND INTEGRATIVE HEALTH (NCCIH). Berberine: what you need to know. Bethesda: National Institutes of Health, 2022. Disponível em: https://www.nccih.nih.gov. Acesso em: 2025.
YIN, J.; YE, J.; JIA, W. Effects and mechanisms of berberine in diabetes treatment. Acta Pharmaceutica Sinica B, v. 2, n. 4, p. 327-334, 2012.