Endometriose: definição, diagnóstico, sintomas e tratamento baseado em evidências

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O que é endometriose

A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, principalmente no peritônio pélvico, ovários, ligamentos uterossacros e, em casos mais graves, no intestino e no trato urinário.
Essas lesões são estrogênio-dependentes e promovem inflamação local persistente, ativação do sistema imunológico e sensibilização neural, mecanismos diretamente relacionados à dor crônica e à progressão dos sintomas ao longo do tempo.

Diagnóstico

O diagnóstico da endometriose baseia-se inicialmente na história clínica detalhada e no exame físico ginecológico, com especial atenção à dor pélvica cíclica, dismenorreia progressiva e dispareunia profunda.

A ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal é recomendada como exame inicial para a identificação de endometriomas ovarianos e suspeita de endometriose profunda, desde que realizada por profissionais experientes.

A ressonância magnética é indicada para o mapeamento anatômico detalhado da doença, especialmente nos casos de suspeita de comprometimento intestinal, vesical ou ureteral .

Atualmente, a laparoscopia diagnóstica não é mais obrigatória para todas as pacientes, sendo reservada para casos refratários ao tratamento clínico ou quando há suspeita de endometriose profunda complexa.

Sintomas

A dismenorreia intensa e progressiva é o sintoma mais comum da endometriose, frequentemente refratária a analgésicos simples (BECKER et al., 2022).

A dor pélvica crônica não cíclica ocorre em parcela significativa das pacientes e está associada à sensibilização central e periférica da dor (GIUDICE; KAO, 2020).

A dispareunia profunda é frequentemente relatada, especialmente nos casos de acometimento dos ligamentos uterossacros e do fundo de saco posterior (NICE, 2024).

Sintomas intestinais cíclicos, como dor à evacuação, constipação ou diarreia associadas ao período menstrual, podem ocorrer quando há endometriose intestinal (BECKER et al., 2022).

Sintomas urinários cíclicos, como disúria e dor suprapúbica, podem estar presentes nos casos de acometimento vesical (NICE, 2024).

A infertilidade ou subfertilidade é observada em aproximadamente 30% a 50% das mulheres com endometriose, variando conforme a gravidade e a extensão da doença (GIUDICE; KAO, 2020).

Fadiga crônica e redução significativa da qualidade de vida são frequentes, inclusive em pacientes com doença considerada leve nos exames de imagem (BECKER et al., 2022).

Tratamento hormonal

O tratamento hormonal constitui a base do manejo da endometriose em pacientes que não estão tentando engravidar, com o objetivo de reduzir a estimulação estrogênica das lesões e controlar a dor.

Os contraceptivos hormonais combinados, preferencialmente utilizados de forma contínua, reduzem a dismenorreia e a dor pélvica ao suprimir a ovulação e estabilizar o tecido endometrial ectópico.

Os progestagênios isolados, como dienogeste, acetato de noretisterona e o sistema intrauterino de levonorgestrel, promovem atrofia das lesões endometrióticas e apresentam boa eficácia no controle da dor, com perfil de segurança favorável para uso prolongado.

Os agonistas e antagonistas do hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) são indicados em casos moderados a graves ou refratários ao tratamento de primeira linha, promovendo supressão ovariana mais intensa.

O uso de terapia combinada com “add-back” hormonal reduz os efeitos colaterais relacionados ao hipoestrogenismo e contribui para a preservação da densidade mineral óssea.

Estilo de vida e abordagens adjuvantes: o que pode ajudar além do hormônio

A prática regular de exercício físico está associada à redução da dor pélvica e à melhora da qualidade de vida em mulheres com endometriose, possivelmente por mecanismos de modulação inflamatória, redução do estrogênio circulante e melhora da função neuromuscular (RICCI et al., 2021).

Programas que combinam exercício aeróbico, fortalecimento do core e fisioterapia do assoalho pélvico demonstraram redução significativa da intensidade da dor e do impacto funcional da doença.

A adoção de um padrão alimentar anti-inflamatório, rico em frutas, vegetais, fibras e ácidos graxos ômega-3, e pobre em alimentos ultraprocessados, está associada à menor intensidade dos sintomas e a menor risco de progressão da doença.

Dietas com redução do consumo de carnes processadas e gorduras trans mostraram associação com menor risco de dor severa relacionada à endometriose .

O manejo do estresse, a melhora da qualidade do sono e o acompanhamento em saúde mental são componentes fundamentais do tratamento, uma vez que a endometriose apresenta forte associação com sensibilização central da dor, ansiedade e depressão.

Abordagens multidisciplinares que incluem fisioterapia do assoalho pélvico, psicoterapia e educação em dor apresentam melhores resultados clínicos quando comparadas ao tratamento exclusivamente medicamentoso.

Conclusão

O tratamento da endometriose deve ser individualizado, contínuo e fundamentado em evidências científicas, integrando terapias hormonais, estratégias farmacológicas, mudanças de estilo de vida e abordagem multidisciplinar, com o objetivo de controlar a dor, reduzir o impacto funcional da doença e melhorar a qualidade de vida.

Referências – Norma ABNT

BECKER, C. M. et al. ESHRE guideline: endometriosis. Human Reproduction Open, Oxford, v. 2022, n. 2, p. 1-26, 2022.

BECKER, C. M. et al. Long-term safety and efficacy of relugolix combination therapy in endometriosis. Human Reproduction, Oxford, 2024.

FACCHIN, F. et al. Mental health in women with endometriosis. International Journal of Environmental Research and Public Health, Basel, v. 18, n. 11, 2021.

GIUDICE, L. C.; KAO, L. C. Endometriosis. The Lancet, London, v. 395, n. 10224, p. 1775-1788, 2020.

GIUDICE, L. C. et al. Relugolix combination therapy for endometriosis-associated pain. The Lancet, London, v. 399, n. 10343, p. 226-238, 2022.

LEONE ROBERTI MAGGIORE, U. et al. Imaging for deep endometriosis. Ultrasound in Obstetrics & Gynecology, Hoboken, v. 58, n. 1, 2021.

MENDES, D. A. et al. Physical exercise and endometriosis pain. Journal of Physical Therapy Science, Tokyo, v. 32, n. 7, 2020.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE (NICE). Endometriosis: diagnosis and management (NG73). London, 2024.

PARAZZINI, F. et al. Diet and endometriosis risk. Human Reproduction, Oxford, v. 36, n. 2, 2021.

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