
“No consultório, é comum ouvir: Eu só quero hormônios bioidênticos, porque são naturais e mais seguros’.” Essa afirmação reflete como o termo bioidêntico se popularizou e passou a ser associado automaticamente a ideias de naturalidade, segurança e superioridade terapêutica. No entanto, essa associação nem sempre corresponde ao que a ciência realmente demonstra.
Compreender o que significa um hormônio bioidêntico, como ele se diferencia de outros hormônios utilizados na prática clínica e quais são os limites desse conceito é fundamental para escolhas conscientes e baseadas em evidências.
O que significa, de fato, um hormônio bioidêntico?
Do ponto de vista científico,hormônios bioidênticos são aqueles cuja estrutura molecular é idêntica à dos hormônios produzidos naturalmente pelo organismo humano.
Em termos químicos, isso significa que não existe diferença entre o hormônio produzido pelo corpo e o hormônio administrado como medicamento .
Esse conceito é objetivo e restrito: 👉 bioidêntico refere-se exclusivamente à estrutura molecular.
Ele não descreve a origem da substância, não garante maior segurança, não define eficácia clínica e não elimina riscos. Um equívoco frequente é confundir bioidêntico com “natural”. Embora muitos hormônios bioidênticos sejam sintetizados a partir de precursores vegetais, como a diosgenina da soja ou do inhame, eles passam por processos químicos industriais até se tornarem moléculas idênticas às humanas. Assim, bioidêntico não é sinônimo de natural, artesanal ou isento de efeitos adversos.
Qual é a diferença entre hormônios bioidênticos e não bioidênticos?
A diferença central entre hormônios bioidênticos e hormônios não bioidênticos (ou sintéticos) está na estrutura química. Hormônios não bioidênticos apresentam pequenas modificações moleculares que os tornam diferentes do hormônio humano original. Essas alterações podem influenciar a afinidade pelos receptores hormonais, o metabolismo hepático e o perfil de efeitos colaterais .
Estrógenos como exemplo
O 17β-estradiol é quimicamente idêntico ao estradiol produzido pelos ovários e, portanto, bioidêntico. Ele é amplamente utilizado em formulações orais e transdérmicas. Em contraste, os estrogênios conjugados equinos, derivados da urina de éguas prenhas, contêm moléculas que não existem no organismo humano, sendo classificados como não bioidênticos .
Essas diferenças estruturais ajudam a explicar variações observadas em efeitos metabólicos, risco trombótico e tolerabilidade clínica, especialmente quando se considera a via de administração.
Progesterona e progestagênios
A progesterona micronizada é estruturalmente idêntica à progesterona endógena e, portanto, bioidêntica. Já os progestagênios sintéticos possuem alterações químicas que podem resultar em interações adicionais com receptores androgênicos e glicocorticoides, o que se reflete em perfis clínicos distintos descritos na literatura científica .
Testosterona
A testosterona utilizada em géis, injetáveis ou implantes tem a mesma estrutura da testosterona produzida naturalmente pelo organismo humano, sendo considerada bioidêntica. O que varia entre as formulações são os veículos, ésteres ou sistemas de liberação, que determinam a absorção e a duração do efeito, e não a molécula hormonal em si .
Hormônios bioidênticos são mais seguros?
A literatura científica atual é consistente ao afirmar que **não há evidência de que hormônios bioidênticos sejam intrinsecamente mais seguros ou mais eficazes apenas por serem bioidênticos**.
A segurança e os benefícios da terapia hormonal dependem principalmente de:
indicação clínica adequada;
dose correta;
via de administração apropriada;
perfil individual de cada pessoa;
acompanhamento e monitoramento regulares.
Esse posicionamento é reforçado por grandes sociedades médicas internacionais, como a North American Menopause Society e a Endocrine Society . Outro ponto importante diz respeito às formulações manipuladas. Embora muitas utilizem hormônios bioidênticos, isso não garante maior segurança. Formulações manipuladas frequentemente carecem de estudos robustos de padronização, farmacocinética e controle de qualidade, o que exige cautela e acompanhamento rigoroso.
O que realmente importa na terapia hormonal
Mais importante do que o rótulo “bioidêntico” é como a terapia hormonal é indicada, conduzida e monitorada. A ciência mostra que os melhores resultados estão associados à individualização do tratamento, ao conhecimento técnico e à avaliação contínua de riscos e benefícios.
A terapia hormonal é uma ferramenta poderosa para melhorar qualidade de vida quando bem indicada, mas exige informação de qualidade, acompanhamento médico e decisões baseadas em evidências — não em promessas simplificadas ou conceitos de marketing.
Pontos-chave para lembrar
Bioidêntico refere-se apenas à estrutura molecular, não à origem ou segurança.
Bioidêntico não é sinônimo de natural.
Não há evidência científica de maior segurança intrínseca.
Dose, via, indicação e acompanhamento são mais determinantes do que o tipo de hormônio.
A decisão deve ser sempre individualizada e baseada em ciência.
Quer se aprofundar mais?
Converse com um profissional de saúde qualificado para entender qual estratégia terapêutica faz sentido para o seu caso, com base em evidências científicas e acompanhamento adequado.
Referências (Norma ABNT)
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