Peptídeos: definição, mecanismos de ação, indicações clínicas e status regulatório

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O que são os Peptídeos?

Os peptídeos são moléculas formadas por cadeias curtas de aminoácidos, que exercem funções fundamentais como mensageiros biológicos, atuando no sistema endócrino, nervoso, gastrointestinal e imunológico. Diferentemente das proteínas longas, os peptídeos geralmente se ligam a receptores específicos, ativando ou inibindo vias metabólicas, inflamatórias, hormonais e energéticas de forma altamente regulada (CNIB, 2015).

Na prática clínica moderna, o termo “peptídeo” engloba tanto medicamentos aprovados por agências regulatórias, com estudos clínicos robustos e indicações bem definidas, quanto substâncias sem aprovação formal, frequentemente comercializadas no mercado paralelo como “pesquisa”, sem garantia de eficácia, segurança, pureza ou esterilidade (FDA, 2023; ANVISA, 2026).

Em estudos de obesidade e metabolismo, é essencial destacar que a perda de peso expressa em percentual se refere, na maioria das publicações, à perda percentual do peso corporal total, e não especificamente à redução de gordura medida por DEXA ou outros métodos de composição corporal, salvo quando explicitamente informado (PI-SUNYER et al., 2015; WILDING et al., 2021).

Peptídeos com evidência clínica robusta e uso regulado

1-Liraglutida (agonista do receptor de GLP-1) – Saxenda® / Victoza®

A liraglutida é um análogo do GLP-1 (glucagon-like peptide-1), hormônio incretínico secretado pelo intestino em resposta à ingestão alimentar. Seu mecanismo de ação envolve múltiplos sistemas. No pâncreas, estimula a secreção de insulina de forma dependente da glicose e reduz a liberação de glucagon, contribuindo para melhora do controle glicêmico. No sistema nervoso central, atua em núcleos hipotalâmicos e em áreas relacionadas à recompensa alimentar, promovendo aumento da saciedade e redução da ingestão calórica. No trato gastrointestinal, retarda o esvaziamento gástrico, o que também participa do controle do apetite (PI-SUNYER et al., 2015).

O estudo SCALE Obesity and Prediabetes demonstrou que liraglutida 3,0 mg/dia, associada a mudanças de estilo de vida, resultou em aproximadamente 8% de perda do peso corporal total em 56 semanas, em comparação a cerca de 2,6% no grupo placebo (PI-SUNYER et al., 2015). Estudos de manutenção mostraram que o medicamento também auxilia na sustentação da perda ponderal após dietas hipocalóricas iniciais (CNIB, 2015).

FDA (EUA)
– Aprovada para controle crônico do peso como adjuvante a dieta hipocalórica e atividade física (Saxenda®) (FDA, 2023).
– Aprovada para diabetes mellitus tipo 2 (Victoza®) (FDA, 2023).

Anvisa (Brasil)
– Saxenda® aprovado para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidades, conforme bula brasileira (ANVISA, 2022).

Semaglutida (agonista do receptor de GLP-1) – Ozempic® / Rybelsus® / Wegovy®

A semaglutida é um agonista do receptor de GLP-1 com meia-vida prolongada, permitindo administração semanal na formulação subcutânea. Atua de maneira semelhante à liraglutida, com efeitos centrais de saciedade, redução do apetite e efeitos pancreáticos incretínicos, além de retardar o esvaziamento gástrico (WILDING et al., 2021).

No estudo STEP-1, a semaglutida 2,4 mg semanal levou a uma perda média de 14,9% do peso corporal total em 68 semanas, contra 2,4% no grupo placebo (WILDING et al., 2021). Resultados semelhantes foram observados em outros estudos do programa STEP, inclusive em pacientes com diabetes tipo 2 (WILDING et al., 2021).

FDA (EUA)
– Aprovada para diabetes mellitus tipo 2 (Ozempic®, Rybelsus®) (FDA, 2021).
– Aprovada para controle crônico do peso (Wegovy®) (FDA, 2021).

Anvisa (Brasil)
– Ozempic® e Rybelsus® aprovados para diabetes tipo 2.
– Wegovy® aprovado para obesidade e controle crônico do peso (ANVISA, 2025).

Tirzepatida (agonista duplo GIP/GLP-1) – Mounjaro® / Zepbound®

A tirzepatida combina agonismo dos receptores GIP (glucose-dependent insulinotropic polypeptide) e GLP-1, atuando simultaneamente em duas vias incretínicas intestinais. O GLP-1 promove saciedade e melhora glicêmica, enquanto o GIP parece modular a resposta metabólica e potencializar o efeito do GLP-1 em centros hipotalâmicos e no metabolismo periférico (JASTREBOFF et al., 2022).

No estudo SURMOUNT-1, as reduções médias de peso em 72 semanas foram de aproximadamente 15% (5 mg), 19,5% (10 mg) e 20,9% (15 mg), comparadas a cerca de 3% no placebo, estabelecendo a tirzepatida como uma das terapias farmacológicas com maior magnitude média de perda ponderal já descritas (JASTREBOFF et al., 2022).

FDA (EUA)
– Aprovada para controle crônico do peso (Zepbound®) (FDA, 2023).
– Aprovada para diabetes mellitus tipo 2 (Mounjaro®) (FDA, 2022).

Anvisa (Brasil)
– Mounjaro® aprovado para diabetes tipo 2.
– Não aprovado para obesidade até o momento; uso de produtos sem registro é proibido (ANVISA, 2026).

Tesamorelina (análogo de GHRH) – Egrifta®

A tesamorelina é um análogo do hormônio liberador do GH (GHRH), estimulando a secreção pulsátil de GH pela hipófise, com aumento secundário de IGF-1. Seu efeito clínico relevante é a redução de gordura visceral, e não perda de peso global (FALUTZ et al., 2007).

Ensaios clínicos em pacientes com HIV e lipodistrofia demonstraram reduções significativas da gordura visceral abdominal, medidas por tomografia computadorizada, com manutenção do efeito durante o tratamento (FALUTZ et al., 2010).

FDA (EUA)
– Aprovada para redução de gordura abdominal visceral em adultos com HIV e lipodistrofia.
– Não indicada para emagrecimento geral (FDA, 2025).

Anvisa (Brasil)
– Não possui registro como medicamento regular até o momento (ANVISA, 2024).

Setmelanotida (agonista do receptor MC4R) – Imcivree®

A setmelanotida atua no receptor MC4R, peça central do controle hipotalâmico da saciedade. É indicada exclusivamente para obesidades genéticas raras, caracterizadas por hiperfagia grave, como deficiências de POMC, PCSK1, LEPR e síndrome de Bardet-Biedl (CLÉMENT et al., 2020).

Estudos de fase 3 demonstraram redução da hiperfagia e perda de peso clinicamente relevante nesses grupos específicos (CLÉMENT et al., 2020).

FDA (EUA)
– Aprovada para obesidade genética específica (POMC/PCSK1/LEPR e Bardet-Biedl) (FDA, 2024).

Anvisa (Brasil)
– Não possui registro como medicamento regular (TJDFT, 2020).

Metreleptina (análoga da leptina) – Myalept®

A metreleptina é um análogo recombinante da leptina, hormônio produzido pelo tecido adiposo que sinaliza ao sistema nervoso central o estado das reservas energéticas. Em lipodistrofias, a deficiência de leptina leva a desregulação metabólica grave, incluindo resistência à insulina, hipertrigliceridemia e esteatose hepática (CHAN et al., 2011).

Estudos de longo prazo demonstraram melhora sustentada do controle glicêmico, redução de triglicerídeos e melhora de enzimas hepáticas (CHAN et al., 2011; AJLUNI et al., 2016).

FDA (EUA)
– Aprovada para complicações metabólicas da deficiência de leptina em lipodistrofias.

Anvisa (Brasil)
– Myalept® aprovado para tratamento adjuvante das lipodistrofias (ANVISA, 2023).

Peptídeos sem aprovação regulatória e com evidência limitada

  1. GHK-Cu

O GHK-Cu é um complexo peptídico naturalmente presente no plasma humano, associado à cicatrização cutânea, síntese de colágeno, angiogênese local e modulação da matriz extracelular. Estudos dermatológicos demonstram melhora de elasticidade e parâmetros de envelhecimento cutâneo, principalmente em uso tópico (PICKART et al., 2015; MAO et al., 2023).

Não há evidência robusta de benefício sistêmico para músculo, tendão ou composição corporal.

FDA (EUA)
– Não aprovado como medicamento sistêmico.

Anvisa (Brasil)
– Utilizado como ativo cosmético; não aprovado como medicamento.

  1. MOTS-c

O MOTS-c é um peptídeo codificado pelo DNA mitocondrial, envolvido na regulação da homeostase metabólica e eficiência energética celular. Atua ativando a AMPK, promovendo maior utilização de glicose, melhora da sensibilidade à insulina e adaptação ao estresse metabólico em modelos experimentais (LEE et al., 2015; REYNOLDS et al., 2021).

Apesar do racional fisiológico, a evidência permanece predominantemente pré-clínica.

FDA (EUA)
– Não aprovado.

Anvisa (Brasil)
– Não possui registro.

Referências (Norma ABNT)

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Saxenda® (liraglutida): registro e indicação terapêutica. Brasília: Anvisa, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa. Acesso em: 27 jan. 2026.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Myalept (metreleptina): novo registro. Brasília: Anvisa, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/medicamentos/novos-medicamentos-e-indicacoes/myalept-metreleptina-novo-registro. Acesso em: 27 jan. 2026.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Semaglutida: informações regulatórias e farmacovigilância. Brasília: Anvisa, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa. Acesso em: 27 jan. 2026.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Canetas emagrecedoras irregulares: alerta sanitário sobre tirzepatida. Brasília: Anvisa, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anvisa. Acesso em: 27 jan. 2026.

AJLUNI, N. et al. Efficacy and safety of metreleptin in patients with partial lipodystrophy. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 101, n. 8, p. 2856–2864, 2016.

CHAN, J. L. et al. Clinical effects of long-term metreleptin treatment in patients with lipodystrophy. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 96, n. 6, p. 1798–1806, 2011.

CLÉMENT, K. et al. Efficacy and safety of setmelanotide, an MC4R agonist, in individuals with severe obesity due to POMC or LEPR deficiency. The New England Journal of Medicine, v. 383, n. 15, p. 1413–1423, 2020.

FALUTZ, J. et al. Metabolic effects of a growth hormone–releasing factor in HIV-infected patients with central fat accumulation. The New England Journal of Medicine, v. 357, n. 23, p. 2359–2370, 2007.

FALUTZ, J. et al. Effects of tesamorelin on visceral fat and metabolic parameters in HIV-infected patients. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 95, n. 8, p. 4291–4304, 2010.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Saxenda® (liraglutide): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2023.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Wegovy® (semaglutide): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2021.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Zepbound® (tirzepatide): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2024.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Egrifta WR® (tesamorelin): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2025.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Imcivree® (setmelanotide): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2024.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Forzinity™ (elamipretide): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2025.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Nocdurna® (desmopressin acetate): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2018.

FOOD AND DRUG ADMINISTRATION (FDA). Vyleesi® (bremelanotide): prescribing information. Silver Spring: FDA, 2019.

FRIEDMAN, F. M. et al. Desmopressin in the treatment of nocturia: clinical evidence and experience. Therapeutic Advances in Urology, v. 5, n. 6, p. 310–317, 2013.

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PICKART, L.; MARGOLIN, Y.; HELLER, R. The human tri-peptide GHK-Cu in prevention of oxidative stress and repair of tissue damage. Biomedicine & Pharmacotherapy, v. 69, p. 1–9, 2015.

PI-SUNYER, X. et al. A randomized, controlled trial of 3.0 mg of liraglutide in weight management. The New England Journal of Medicine, v. 373, n. 1, p. 11–22, 2015.

RINKE, A. et al. Placebo-controlled, double-blind study on the effect of octreotide LAR in patients with metastatic neuroendocrine midgut tumors (PROMID). Journal of Clinical Oncology, v. 27, n. 28, p. 4656–4663, 2009.

REYNOLDS, J. C. et al. Mitochondrial-derived peptides and metabolic regulation: role of MOTS-c. Trends in Endocrinology & Metabolism, v. 32, n. 9, p. 653–664, 2021.

SOSNE, G. et al. Thymosin beta 4 ophthalmic solution for dry eye: a randomized, placebo-controlled clinical trial. Clinical Ophthalmology, v. 9, p. 2225–2234, 2015.

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO DISTRITO FEDERAL E DOS TERRITÓRIOS (TJDFT). Nota Técnica NATJUS: Imcivree® (setmelanotide). Brasília: TJDFT, 2020.

WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity (STEP 1). The New England Journal of Medicine, v. 384, n. 11, p. 989–1002, 2021.

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