
Queda de cabelo com Mounjaro (tirzepatida) é real? Entenda a causa, evidências científicas, relação com emagrecimento e como prevenir eflúvio telógeno. Nos últimos meses, surgiram relatos de queda de cabelo em pessoas usando Mounjaro® (tirzepatida), especialmente no contexto de perda de peso.
Isso gerou preocupação e, em alguns casos, interrupção do tratamento por conta própria. A pergunta central é objetiva: a tirzepatida causa queda de cabelo?
A resposta baseada na literatura é igualmente objetiva e honesta: 👉 a queda de cabelo pode ocorrer em uma parcela dos pacientes, mas o mecanismo mais provável é indireto, relacionado ao emagrecimento rápido, restrição calórica e déficits nutricionais, e não a uma toxicidade direta da tirzepatida sobre o folículo piloso.
Ensaios clínicos e bula oficial
Na bula norte-americana de Zepbound® (tirzepatida) — mesma molécula, aprovada para tratamento da obesidade — a queda de cabelo é descrita como evento adverso observado nos estudos clínicos, associado à redução de peso.
Os dados mostram:
7,1% das mulheres no grupo tirzepatida relataram queda de cabelo
1,3% das mulheres no grupo placebo
Em homens, os percentuais foram muito menores.
👉 É fundamental contextualizar: a grande maioria das participantes NÃO apresentou queda de cabelo, mesmo com uso do medicamento.
O dado indica associação, não um efeito universal. Na bula do Mounjaro®, a alopecia também aparece em relatos pós-comercialização, o que significa que foi observada após o medicamento entrar em uso amplo, mas sem estabelecer causalidade direta.
Farmacovigilância: sinal não é prova de causa
Análises de bancos de farmacovigilância (FAERS) identificaram um sinal de associação entre agonistas do GLP-1 (incluindo semaglutida e tirzepatida) e relatos de alopecia .
⚠️ Importante: Esses estudos não medem incidência real e não comprovam causa, apenas indicam que o evento foi relatado com frequência suficiente para merecer investigação adicional. A própria literatura reforça que o fenômeno provavelmente reflete efeitos sistêmicos do emagrecimento, e não ação direta no couro cabeludo.
Qual é a causa mais provável da queda de cabelo?
Eflúvio telógeno associado ao emagrecimento o diagnóstico mais compatível com esse cenário é o eflúvio telógeno, uma condição caracterizada por queda difusa e temporária, geralmente iniciando 2 a 3 meses após um estressor metabólico.
O emagrecimento rápido atua como gatilho clássico de ET porque:
Reduz ingestão calórica e proteica altera a disponibilidade de micronutrientes sinaliza ao organismo um estado de “economia energética”
Nessa situação, o corpo prioriza funções vitais e interrompe temporariamente o ciclo de crescimento dos fios, levando mais cabelos à fase de queda.
Déficits nutricionais: o elo fisiológico
Os déficits nutricionais não são uma causa separada, mas um dos principais mecanismos do eflúvio telógeno.
Estudos associam ET a ingestão inadequada de: proteína, ferro (especialmente ferritina baixa) , zinco , vitaminas do complexo B , vitamina D
Esse padrão é descrito tanto em dietas restritivas quanto após cirurgia bariátrica ou uso de fármacos que reduzem fortemente o apetite.
Como evitar queda de cabelo durante o uso de Mounjaro?
A prevenção segue o mesmo raciocínio usado para qualquer emagrecimento saudável, com foco em reduzir gatilhos de eflúvio telógeno.
1. Evite emagrecimento excessivamente rápido
A própria bula associa a queda à perda de peso, não ao fármaco isoladamente . Estratégias muito agressivas aumentam o risco.
2. Garanta ingestão adequada de proteína
Proteína é substrato essencial para o ciclo capilar. Redução abrupta da ingestão está entre os gatilhos clássicos de ET.
3. Avalie e corrija deficiências nutricionais.
Em casos de queda persistente, a literatura recomenda investigar: * ferritina/ferro * vitamina D , zinco , vitamina B12 e folato.
4. Controle sintomas gastrointestinais
Náuseas, vômitos ou inapetência intensa dificultam manter nutrição adequada. O manejo desses sintomas é parte indireta da prevenção da queda.
5. Evite intervenções capilares agressivas
No eflúvio telógeno, o problema é sistêmico. Procedimentos químicos, tração excessiva e calor podem agravar a percepção de afinamento.
A queda é permanente?
Na maioria dos casos, não. O eflúvio telógeno é autolimitado e tende a melhorar quando: o peso se estabiliza a ingestão nutricional é corrigida o organismo sai do estado de estresse metabólico
Persistência além de 6 meses exige investigação de outras causas, como alopecia androgenética coexistente.
Conclusão prática
👉 A queda de cabelo com Mounjaro é real, mas incomum e geralmente temporária.
👉 Não há evidência sólida de toxicidade direta da tirzepatida no folículo piloso.
👉 O mecanismo mais provável é eflúvio telógeno secundário ao emagrecimento e à restrição nutricional.
Não interrompa o tratamento por conta própria.
Ajustes de estratégia, nutrição e acompanhamento médico costumam ser suficientes para resolver o problema.
Este artigo tirou sua dúvida sobre queda de cabelo com Mounjaro? Se você está passando por isso, converse com seu médico antes de qualquer decisão. Manejo individualizado faz toda a diferença.
Referências (ABNT)
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