Reposição hormonal na menopausa engorda? O que a ciência realmente mostra

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A dúvida é extremamente comum na prática clínica: “comecei a reposição hormonal na menopausa e estou ganhando peso — isso é culpa do hormônio?”. A resposta baseada nas melhores evidências disponíveis é clara: a terapia hormonal da menopausa (THM) não causa ganho de gordura corporal de forma clinicamente relevante. O que ocorre, na maioria das vezes, é que o corpo feminino passa por transformações metabólicas importantes nesse período da vida, que muitas vezes são atribuídas, de forma equivocada, ao uso dos hormônios.

Ensaios clínicos randomizados, estudos de coorte e posicionamentos oficiais de sociedades médicas mostram de forma consistente que a THM não está associada ao aumento de peso. Pelo contrário, quando comparadas mulheres que utilizam terapia hormonal com aquelas que não utilizam, observa-se frequentemente menor ganho de gordura abdominal no grupo tratado — o que não deve ser confundido com um efeito emagrecedor.

Por que o peso costuma aumentar na menopausa?

O ganho de peso entre os 40 e 60 anos é um fenômeno multifatorial e não exclusivo da menopausa. Entre os principais fatores envolvidos, destacam-se:

Envelhecimento: com o avanço da idade, há redução progressiva do metabolismo basal, mesmo em pessoas com hábitos estáveis.

Sarcopenia: ocorre perda gradual de massa muscular ao longo dos anos, o que reduz o gasto energético diário e favorece o acúmulo de gordura.

Redistribuição de gordura corporal: a queda dos níveis de estrogênio favorece o acúmulo de gordura no tronco e no abdome, alterando a silhueta corporal mesmo quando o peso total se mantém relativamente estável (COSTA et al., 2020).

Mudanças no estilo de vida: sintomas comuns da transição menopausal, como ondas de calor, alterações do humor e piora do sono, podem reduzir a disposição para atividade física e aumentar a busca por alimentos mais calóricos como forma de conforto emocional.

Esses fatores ajudam a explicar por que muitas mulheres percebem aumento de peso ou mudança corporal nesse período, independentemente do uso de hormônios.

O que dizem os grandes estudos sobre terapia hormonal e peso?

Quando analisamos estudos de alta qualidade metodológica, o padrão é consistente. A terapia hormonal não promove ganho de peso e pode, inclusive, atenuar algumas das alterações típicas da menopausa.

Um dos trabalhos mais citados sobre o tema é um subestudo da Women’s Health Initiative (WHI), que avaliou composição corporal por densitometria (DXA). Após três anos de acompanhamento, mulheres em uso de estrogênio associado a progestagênio apresentaram menor perda de massa magra e efeitos discretamente favoráveis na distribuição de gordura quando comparadas ao grupo placebo (CHEN et al., 2005).

Estudo brasileiro conduzido com mulheres no início da pós-menopausa também demonstrou que a THM esteve associada à prevenção do aumento de gordura central, reforçando que o tratamento pode mitigar — e não agravar — alterações corporais típicas desse período (COSTA et al., 2020).

O posicionamento mais recente da North American Menopause Society afirma de forma explícita que a terapia hormonal não está associada ao ganho de peso e pode estar relacionada a menor acúmulo de gordura abdominal ao longo do tempo (NAMS, 2022).

“Mas eu me sinto inchada desde que comecei…”

Aqui é fundamental diferenciar ganho de gordura de retenção hídrica. No início da terapia, algumas mulheres podem relatar sensação de inchaço, edema leve ou maior sensibilidade mamária. Esses efeitos costumam ser transitórios e não representam aumento de tecido adiposo.

Ajustes individualizados costumam resolver o problema, como redução de dose, troca do tipo de progestagênio ou mudança da via de administração. A via transdérmica (adesivos ou gel), por evitar a primeira passagem hepática, tende a ter menor impacto sobre retenção hídrica, metabolismo lipídico e coagulação, sendo frequentemente melhor tolerada do que a via oral.

Estratégias práticas para controle do peso na menopausa

Se o peso aumenta durante o uso da THM, é importante ampliar o olhar para outros pilares da saúde:

– Ingestão adequada de proteínas e treino de força, essenciais para preservar massa muscular;
– Qualidade do sono, pois sua privação desregula hormônios como grelina e leptina;
– Avaliação metabólica, incluindo resistência à insulina e função tireoidiana quando clinicamente indicado.

A terapia hormonal é uma ferramenta poderosa para melhora de sintomas e qualidade de vida, mas o controle do peso corporal continua dependente principalmente de hábitos, composição corporal e contexto metabólico individual.

Em síntese, a ciência é clara: a reposição hormonal na menopausa não engorda. Quando bem indicada e individualizada, ela pode inclusive ajudar a atenuar mudanças desfavoráveis na composição corporal, sem substituir, é claro, o papel central do estilo de vida.

Referências (Norma ABNT)

AMERICAN COLLEGE OF OBSTETRICIANS AND GYNECOLOGISTS (ACOG). Hormone Therapy for Menopause. Washington, DC: ACOG, 2024. Disponível em: https://www.acog.org/womens-health/faqs/hormone-therapy-for-menopause. Acesso em: 24 dez. 2025.

CHEN, Z. et al. Postmenopausal hormone therapy and body composition: a substudy of the Women’s Health Initiative trial. The American Journal of Clinical Nutrition, Oxford, v. 82, n. 3, p. 651–656, 2005.

COSTA, G. B. C. et al. Influence of menopausal hormone therapy on body composition and metabolic profile in early postmenopause. Clinics, São Paulo, v. 75, e1486, 2020.

THE NORTH AMERICAN MENOPAUSE SOCIETY (NAMS). The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause, v. 29, n. 7, 2022.

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